Plena


Recordo de noites como essa. Noites de sábados à noite sem companhia, sem ter o que fazer, sem sono e sem expectativas.
Lembro de sentir uma angustia imensa; uma vontade absurda de beber, de fumar, de sair e conhecer um estranho pra conversar a noite inteira. De escrever, de compor, de tocar um soul e sorrir sem motivo. Mas só vontade.
Não lembro o que eu fazia. Acho que apenas pensava como poderia e nunca acabou sendo.
Aqui estou eu. Mais um sábado a noite de ócio e sem produtividade. Não saí, não bebi, não fumei e não  conversei com um estranho a noite inteira.
Mas dou-me por satisfeita.
Li um livro, escrevi umas linhas. Estou ouvindo Aretha e pensando ‘que puta voz do caralho! Como canta essa mulher!’ Estou num estado sublime de espírito. Meu interior transbordando calmaria e plenitude. Talvez seja o trabalho, o dinheiro, a independência, as conquistas. Claro que a inquietude do novo e da descoberta ainda me sonda, porém não mais me atormenta. E por isso eu até arriscaria dizer que estou alegre.
E agradeço por me sentir, depois de tanto tempo vagueando na penumbra, como um raio de sol numa manhã de domingo: satisfeito por poder iluminar um dia de descanso.

O Muro


Eu preciso sentar aqui e escrever, ou enlouqueço.
Desliguei a luz da sala e fiquei alguns minutos contemplando a chuva que caia do céu e molhava o muro da minha casa. O muro despertou estes antigos pensamentos, que insistem em renovar minhas idéias. Maldito muro.
Eu o olhava e questionava a minha existência. O porquê de tanta mesmice, tanta rotina e repetição. Marasmo e tédio.

E se a vida é mesmo essa caixa de Pandora, esse sonho que possui um despertar misterioso chamado morte e traz à minha mente muitas questões retóricas: O que me dá certeza de que estou acordada?  Porque estou aqui?  Que sentido há em nascer, viver e depois morrer?
O que serei? (...) Serei? Um mero sopro de existência insignificante diante de tantos zilhares de seres que esse planeta habitável no meio da imensidão possui.
 As próximas gerações não recordarão quem fui, assim como não me recordo quem foram os ancestrais que deram origem a mim. E mais uma vez me questiono que sentido há nisso. Em apenas ser formado, para conhecer o que foi a terra. Para construir laços emotivos com outros seres que apenas existirão também. E depois ser esquecido.
Quantas outras zilhares de pessoas sequer pararam pra pensar sobre isso e levam suas simples vidas, contentando-se com o fato de que “é assim mesmo”. Talvez estas sejam mais felizes que eu. Apenas sorriem e vão em frente.
E aquele mínimo e seleto grupo que nasceu pra brilhar, para fazer a diferença? Como terá o acaso os escolhido? Aqueles que viveram, ao invés de apenas existir e souberam transformar o sopro breve de existência na terra em algo significativo e proveitoso. A esses, invejo. Queria ser como eles. Nascer com alguma espécie de dádiva. Talvez não estivesse nesse momento a me questionar diante de um muro molhado de chuva. Ou talvez sim... Quem sabe? Poderia estar me perguntando: Por que eu? =/
Não chegarei a lugar algum com estes pensamentos. E de nada aproveitaria mais ou menos, sendo alguém que questionou, que nem se importou, ou que viveu ao invés de apenas existir. O tempo se vai para todos, e o sentido inútil de uma vida passageira de toda forma é eminente. Não importa quem eu seja. O que resta para estes ou aqueles é o nada. O mesmo nada. Nem uma mera lembrança. O fim é sempre o mesmo e todo questionamento é vão.



Caleidoscópio


Era uma garota que possuía mais pensamentos do que as palavras conhecidas pudessem expressar. Observava muito e falava pouco.

O tempo foi calando a sua voz, o que a tornou uma pessoa muito audível; característica que seus amigos adoravam, pois podiam falar horas sobre si próprios de modo que de tanto falarem sozinhos, encontravam por si mesmos a solução de seus próprios problemas.

Mas nunca lembraram de perguntar como a garota se sentia. E ela foi sentindo cada vez mais para si. Acumulando turbilhões de sentimentos que a fez mudar toda sua forma de pensar e de enxergar a vida. E isso a calou ainda mais.

Certo dia, alguém se deu conta de que a garota não falava de si própria. E vieram as perguntas. E mesmo ela ficou surpresa ao perceber que não possuía mais respostas sobre si. Aqueles sentimentos acumulados gritando dentro de si estavam tão apressados para sair e se fazer notar que acabaram congestionando a saída, seja lá de onde eles se acumulavam.

Com o tempo acostumou-se a conviver também com isso.

E a solidão que fazia parte do seu mundo tão vívido ganhava cores na insônia imaginativa de suas madrugadas pensantes. Escrevia, para não falar sozinha. Mirava-se num espelho de palavras amargas em versos escritos numa espécie de emese.

Sua voz distante ressoava no cérebro pensante como quem grita diante de um abismo. E quando lia o reflexo de seu desvario, o abismo gritava de volta... Um eco alucinante de si mesma.

Uma sala de espelhos distorcidos: essa era sua mente;  era assim que se enxergava. Mas era só um reflexo imaginário não condizente com sua figura real. Ela sabia, mas ainda não conseguia enxergar de outra forma. Não ainda.